Rio de Janeiro: transformações em uma paisagem natural

03.12.2012 | Comente

Autores e organizadores do livro "Guia de História Natural" em debate

O Rio de Janeiro, conhecido como a cidade maravilhosa, tem belezas naturais que encantam moradores e visitantes, mas que são pouco estudadas do ponto de vista das ciências naturais. Evento da série Encontros com a Pesquisa, no dia 04.12, discutiu os condicionantes ambientais que moldaram a história natural da cidade e as alterações na paisagem carioca ao longo do tempo com a presença de autores e organizadores do livro “Guia de Historia Natural do Rio de Janeiro”, publicação recém-lançada pela editora Cidade Viva.

O guia, que traz um histórico do perfil da cidade do ponto de vista ambiental, foi lançado em agosto, em uma compilação de textos escritos por especialistas em diferentes áreas, da geomorfologia à astronomia. Maria Teresa e Mozart Serra, organizadores do Guia, são arquitetos com mestrado em Planejamento Urbano e Regional e em Economia pela University of California (Berkeley). Ambos trabalharam no Banco Mundial, com especialidade em questões urbanas.

 

Maria Teresa abriu o debate falando da motivação para o projeto do livro. “O guia surge da vontade de saber mais a respeito da paisagem que nos cerca. Reunimos professores e especialistas, mas pretendíamos fazer um volume com linguagem acessível ao público leigo”, explicou.

 

Dividido em quatro partes, o livro abrange o ambiente físico, os ecossistemas, a fauna e flora e a conservação. “A maior parte dos cariocas tem orgulho de viver na cidade. São profundamente apaixonados por sua beleza natural, mas não se perguntam por que a paisagem é daquele jeito. Essa paixão deve ser fundamentada. É isso que faz o Guia”, completou Mozart.

 

O capítulo introdutório trata dos impactos da presença humana nesta paisagem. “O Rio de Janeiro sofreu intensas transformações. Muito antes da chegada dos europeus a cidade já havia sido alterada ”, revela Mozart. Os Sambaquis (do tupi, “monte de conchas”) talvez tenham sido o primeiro desgaste ambiental provocado pelo ser humano. Estes depósitos de material orgânico e calcáreo, provavelmente de origem ritualística, mostram o uso que o ser humano fazia da natureza há cerca de oito mil anos. Mais tarde vieram as queimadas da floresta, usadas pelos índios para aumentar a fertilidade do solo.

 

A agricultura e a ocupação continuaram moldando a paisagem ao longo dos séculos. O homem tem um papel fundamental, favorecendo certas plantas em detrimento de outras. “Com a chegada dos portugueses, a agricultura se voltou para a exportação. Os canaviais e a cultura do café foram catastróficos”, diz Mozart. O Rio de Janeiro foi ainda centro de pesca de baleias. “Há relatos de moradores que reclamavam até do barulho vindo do mar, de tanta baleia que havia na região”, conta.

 

“A pesca desenfreada deste animal ocasionou sua extinção. Hoje, a paisagem está muito distante daquela que os europeus conheceram. Eles, por sua vez, também viram um Rio de Janeiro já muito modificado pelos ocupantes anteriores”, explicou Mozart.

 

No encontro, Carlos Alberto Rabaça, doutor em astrofísica e professor do Observatório do Valongo, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), louvou os aspectos celestes que influenciam a paisagem da cidade. “Entender os aspectos celestes é essencial para aprender a olhar a paisagem. Poucos sabem, por exemplo, que o Cristo olha para o leste, porque esta é a direção do Vaticano. Também são pouco conhecidos os aspectos celestes que provocam as estações do ano. No Guia, ensinamos mecanismos básicos que permitem a apreciação do céu carioca”, conta Rabaça.

 

Aterros e transformações

 

Professor da Universidade Federal Fluminense, o Engenheiro Florestal e Doutor em Geografia Claudio Bohrer falou dos ecossistemas da cidade. A Região Metropolitana do Rio de Janeiro conta com sete tipos principais de ecossistemas, entre eles os brejos e campos de várzea. Ao longo da ocupação urbana, estes espaços foram extremamente impactados. “O Rio de Janeiro foi construído através de aterramentos. Não é a toa que há tantos alagamentos na cidade.”, comentou.

 

“O Centro do Rio já foi um grande brejo, havia muito pouca terra firme. A Baía de Guanabara chegava até o Campo de Santana. Glória, Urca, Aterro e Praia de Botafogo são grandes aterros”, explica Cláudio. O Rio de Janeiro está totalmente inserido no bioma Mata Atlântica, que recobria originalmente 12% da região costeira do Brasil. Hoje restam apenas 11% de cobertura vegetal original.

A paisagem da cidade ainda está em processo de modificação, intensificada por grandes obras que visam preparar a cidade para os próximos eventos internacionais. “A ocupação se articula em torno do transporte. O subúrbio carioca foi ocupado a partir do desenvolvimento de infraestruturas de locomoção. A informalidade também pauta a ocupação. Na Europa, o aumento da população e a demanda por habitações foram supridos pela construção de conjuntos habitacionais. No Rio, se deu pelo desenvolvimento de favelas. Os valores na época eram diferentes, não havia grande preocupação com o meio ambiente”, conclui Mozart.

Confira o vídeo do evento na íntegra:

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